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O Psicanalista

"O ofício de Psicanalista, para mim, é uma questão ontológica." Fabio Sousa

ENTREVISTA SOBRE AS MULHERES NO MUNDO

Por Fabio Sousa, 13/11/2013



Jéssica Thaiane, estudante de Geografia da Universidade de Pernambuco, fez comigo uma entrevista a respeito das mulheres no mundo. Diria que extremamente apropriada. Confiram:

 

JÉSSICA THAIANE: Sobre o movimento A MARCHA DAS VADIAS, que teve seu início no Canadá e que veio a eclodir também no Brasil, o protesto que já teve sua polêmica iniciada pelo nome sugestivo (VADIAS) e que causou bastante... Cartazes provocadores como: “danço funk sem calcinha e a boceta continua sendo minha”, “meu corpo, minhas regras” deram o que falar... O movimento defendeu o direito, a legitimidade da mulher sobre o seu próprio corpo, sobre a maneira dela se vestir e agir livremente, sem que isto gere qualquer agressão, como o estupro (que foi enfatizado). No Brasil, ele também deu margem a outros temas como o fim da violência doméstica, física, sexual. A mulher como dona de seu próprio corpo, portanto de suas partes íntimas, consegue lidar com isso da maneira ideal, sem traumas?!

 

FABIO SOUSA: Não posso afirmar que as mulheres do mundo, hodiernamente e de um modo geral, podem lidar com a repressão de uma forma ideal, ainda... Mas cabe a todos nós, através de iniciativas como esta entrevista, por exemplo, modificar este panorama acabrunhador. Se a repressão sobre a mulher no mundo se desse apenas no âmbito sexual, ela já seria algo digno de se lamentar, mas a verdade é que ela se passa em diversos aspectos, como o laboral, o intelectual, até mesmo sobre o direito de ir e vir. O fato é que nem sempre a mulher tem sido a dona de seu próprio corpo, como você me perguntou: os homens têm, de várias formas, através de um longo processo histórico, tentado e conseguido subjugar as mulheres à sua fraqueza, porque o que está por trás dessa luta nada mais é do que um medo ancestral do poder feminino de realização, ou seja, uma covardia que se disfarça em força física e brutalidade moral.

Os desavisados dirão que a Marcha das Vadias é uma caminhada de mulheres sem escrúpulos, sem propostas políticas elegantes, composta por vagabundas e daí a origem do seu nome... Não é assim: estas mulheres estão reivindicando a sua dignidade de um modo agressivo, porque foi o modo que encontraram para chamar a atenção da sociedade em geral, porque foi o modo como foram tratadas – e violentadas historicamente – por esta mesma sociedade patriarcal. Elas me fazem lembrar que, por volta da Renascença, na Europa, as mulheres estupradas eram consideradas as verdadeiras culpadas por este crime vil, pois, pensava-se, elas é que haviam despertado a concupiscência dos estupradores!...

O abuso social, quanto mais forte seja, exige um choque tão forte quanto para ser quebrado, para que se rompa com estes padrões, neste caso milenares – o que potencializa sua força. É uma pena que a conjuntura do mundo determine muitas vezes que tenha que ser assim, porque o diálogo seria uma excelente saída – mas, para que ele exista, é preciso que todas as partes estejam interessadas em conversar da forma que foi batizada de “civilizadamente”, porque, na verdade, não somos tão “civilizados” como imaginamos ser...

Então, é necessário que a humanidade desperte para o que ocorre: as mulheres não são, ainda, mesmo nas sociedades ditas democráticas, tratadas como os seres livres que são – e isso é deprimente se avaliarmos nossas conquistas intelectuais, para nós, enquanto coletividade, e para elas, enquanto vítimas deste processo. E por trás disso tudo existe o medo, a covardia dos homens e o silêncio por parte delas.

 

JÉSSICA THAIANE: “Será que o príncipe virou um chato?...’’ – canta Cássia Eller em uma música. Ontem, meninas que sonhavam encontrar seus príncipes encantados e fazer um bom casamento na igreja de véu e grinalda como manda o figurino; hoje, mulheres que estudam, batalham, são chefes de lares, se impõem, definitivamente estão dizendo para quê  vieram e anseiam por independência; elas estão no mercado de trabalho e muitas vezes em cargos melhores que os deles (o que irrita bastante os machões)! Isso pode ser visto na presidência do nosso país, onde o cargo de maior valia é ocupado por uma mulher. Na sua opinião, os sonhos, o modelo de ideal de vida que garotas na fase juvenil desejam pra vida adulta estão rompendo paradigmas? A mulher, no campo profissional, está sendo vista com outros olhos? Positivos ou negativos?

 

FABIO SOUSA: As mulheres, as meninas, de um modo geral – nas sociedades democráticas principalmente – estão rompendo paradigmas em diversos setores, mas é preciso ressaltar que as conquistas atuais não são tudo, que há um campo vasto de coisas ainda por fazer. Se elas podem hoje fazer o que antigamente não faziam, que também enxerguem que isso não se deu por acaso ou por bondade dos homens, mas que é consequência de um litígio social bastante complexo que ainda encontra-se em andamento. Muitas mulheres morreram, foram presas, maltratadas biológica e moralmente – e continuam sendo – para que elas desfrutem desse pequeno prazer (porque, para quem nunca teve liberdade, colocar os braços de fora pode parecer a maravilha das maravilhas...). Mas até que ponto esta parcela de liberdade não se constitui em acordo tácito estratégico para que os homens continuem no poder, sem na verdade compartilhá-lo meio a meio, como deveria ser? Que desfrutem, portanto, da sua conquista, mas que não se enganem pensando que esta já basta.

É claro que, nas sociedades democráticas, a mulher vem ganhando espaço profissionalmente – e isso é superpositivo –, que elas estão rompendo com paradigmas machistas quando encontram brecha para isso, mas, definitivamente, ainda não é o suficiente: é preciso continuar o processo.

Você tem observado o poder realizador da mulher quando lhe é dada a faculdade de fazer? Tem visto a beleza do potencial da sua atuação na política, nas artes, nas ciências, nas religiões? O ambiente sexual dos seres humanos é composto de três sexos: machos, fêmeas e hermafroditas devem dar a sua contribuição para que ele aconteça da melhor forma.

Chegou a hora de os machos da espécie homo sapiens sapiens perceberem que seu pênis e seus testículos são tão potentes quanto a vulva e a vagina ou todos juntos.

E por falar nisso, por que os chamados símbolos fálicos não podem, sinonimicamente, serem chamados também de símbolos vagínicos?

 

JÉSSICA THAIANE: As mulheres questionam e querem ter liberdade sexual igual à dos homens, acho no mínimo digno e o correto. É uma questão de igualdade apenas! Sobre o machismo no Brasil, uma revista teen muito famosa destinada a garotas heterossexuais foi duramente criticada a respeito de uma matéria em que eles expõem as diferenças entre: “menina pra namorar e menina pra ficar”. Eles favoreceram o rótulo de que mulher serve “para isso” ou para “aquilo”, frisando ainda que certas garotas servem para serem usadas e depois jogadas fora. O julgamento de cada tipo de garota foi pautado nos caracteres ligados a motivos externos; as “comportadas” e que ficam com poucos caras são as pra namorar, assim opinaram alguns rapazes, e as para ficar seriam as garotas bonitas que atraem olhares na balada e que ficam com muitos caras, beijando quem elas sentem vontade; uma ao molde da sociedade e a outra atrevida e que usa de sua liberdade para fazer o que sente vontade. Venho de uma sociedade que marginaliza a região sexual da mulher até os dias de hoje, composta por homens que no passado praticamente fizeram um leilão acerca da virgindade da mulher!... A que fosse virgem seria a pura e que mereceria o respeito de um homem... A primeira transa de uma garota, e por consequência as que virão posteriormente,  sempre foram muito preocupantes se ela não tivesse um namorado fixo para praticar; o medo de ficar falada no meio social falava mais alto e esse preconceito vinha tanto da parte dos homens como das próprias mulheres; algumas garotas até hoje mentem que são virgens para serem mais valorizadas por eles e serem mais importantes no meio social. As mulheres, ao longo dos anos até os dias de hoje, estão exercendo o seu direito de serem livres?! Você acha que elas estão felizes com seu papel social perante o sexo?!

 

FABIO SOUSA: Repare que a revista tratou as garotas como coisas a serem utilizadas de acordo com a vontade socialmente imposta pelos machos da espécie. Isso me leva à conclusão de que as mulheres não estão exercendo, de um modo geral, o seu direito de serem livres, até porque, de fato, elas não têm esse direito e acabam acreditando que só serão felizes se seguirem este modelo velado difundido pela revista em questão. E não me refiro necessariamente ao estabelecido como moralmente melhor, mas a isso: elas seguem o que realmente desejam ou são hipnotizadas para que a vontade sorrateira dos machos seja seguida? Elas estão conscientes de suas escolhas? Elas estão questionando, pensando a respeito de toda essa manipulação velada? Isso é consciente? Depois destes questionamentos, chego à conclusão de que o moralmente melhor seria que elas tivessem liberdade de escolher, e, depois, que lhes fosse dado o espaço de problematizar sobre isso tudo, de dialogar e expor suas opiniões.

Dentre todos os medos que os homens sentem perante as mulheres – e por isso a necessidade que também sentem de um modo geral em subjugá-las, seja boicotando o desenvolvimento de sua força orgânica ou moral – o maior de todos eles é o de sua liberdade sexual. Este é um perigo dos mais fortes, um sinal vermelho que acende e assusta tanto que é extremamente difícil para nós conceder-lhes, depois de milênios de esforço, o direito de fazerem de sua genitália o que bem entenderem. E as mulheres ainda não perceberam que basta um esforço pequeno diante do tempo de todo este processo para que tudo isso venha abaixo e que os homens sejam colocados em seu devido lugar – o de pares e não de algozes.

Definitivamente, nenhum ser humano pode ser feliz sendo privado da liberdade de desenvolver plenamente o seu potencial e a sexualidade, neste âmbito, exerce um poder de suma importância.

 

JÉSSICA THAIANE: A mulher e os nossos padrões atuais de beleza... Vivenciamos hoje na sociedade um desregramento causado pela mídia que adotou um corpo modelo, o que agravou alguns pontos negativos como os transtornos alimentares (anorexia e bulimia, por exemplo...) e o fenômeno bullying, que sempre esteve entre nós. Pais que se deixam levar pelo molde midiático e abalam ainda mais a vida de seus filhos os perseguindo para que eles se enquadrem no padrão estabelecido, mesmo diversas vezes sem ter em mente o mal que estão provocando. O que dizer às garotas/mulheres que não foram fortes o suficiente e deixaram-se contaminar pela raiva e o desespero em relação à sua aparência e a imposição social com relação à mesma?

 

FABIO SOUSA: Tenho a dizer-lhes que lamento muito que isso tenha acontecido se elas não puderam estabelecer uma relação crítica com o que é veiculado pela mídia, porque não podemos demonizar a mídia – ela é apenas um veículo, necessário inclusive ao desenvolvimento do mundo. Quem faz os conteúdos veiculados pela mídia é que detém a responsabilidade pela feitura deles. A mesma mídia que hipnotiza os incautos, fazendo-os seguir padrões impostos de modo diversas vezes idiota, também pode educar e muito. A diferença é colocada por quem faz o conteúdo midiático. O exercício da crítica do que nos chega desenvolve nossa inteligência.

A concepção de beleza difere de pessoa para pessoa, embora possamos olhar algumas e dizer que elas são atraentes, sexualmente ou não. É bom, é gostoso nos relacionar com alguém que consideramos apetecível corporalmente, mas será que isso é tudo? E se essa pessoa for apenas gostosa e nada mais?... E é bom lembrar que o nosso olhar a respeito da gostosura das pessoas depende da constituição biopsicosócioespiritual de cada um de nós...

A escravidão deve desaparecer, em nós, neste aspecto, a começar da nossa mente.

 

JÉSSICA THAIANE: Sobre a homossexualidade entre elas, a união afetiva entre mulheres ainda é vista com muito preconceito. Na Rússia, uma lei aprovada pelo parlamento proíbe "propagar relações sexuais não tradicionais" e impõe multas a quem promover passeatas do orgulho gay. No Brasil, existe uma falsa conduta perante o preconceito dissimulado, porque vivemos uma fase em que demostrar preconceitos virou antiestético. Em contrapartida, surge a hipocrisia que a cada dia que passa demonstra o quanto veio pra ficar, recheada de falsos moralismos que infelizmente começam em casa com pais autoritários e chantagistas que provocam verdadeiros danos nas vidas de seus filhos. A igreja, por sua vez, não fica atrás: a comunidade gay e ela ainda não fizeram as pazes e agora aparece também deputado/pastor metido a curandeiro com suas falas bizarras... Ironias à parte, o nosso sistema civil está se moldando aos novos arranjos familiares: uma estrutura composta por duas mães e filhos, por exemplo... Na sua opinião, a sociedade já está pronta pra encarar de uma vez por todas o que existe conosco desde de sempre: a homossexualidade feminina? E como combater esse preconceito vil, dia após dia, sem se deixar abater?!...

 

FABIO SOUSA: Sabe, Putin e os conservadores russos deveriam experimentar uma relação homossexual! Far-lhes-ia um bem imenso!... Talvez, através deste novo movimento de suas energias psíquicas, suas inteligências também se desenvolvessem mais...

Sobre a falsa conduta a que você se refere, ela é ridícula porque hipócrita, mas já é também um avanço, apesar de tímido... Mais tarde, daremos outros passos à frente.

A resposta é não: a sociedade mundial ainda não está pronta para encarar de bom modo a homossexualidade feminina: é necessário prepará-la para isso, inclusive tornando públicas estas uniões e promovendo leis que protejam os homossexuais e bissexuais. Mas a homossexualidade feminina, apesar de execrada pelo contexto atual do mundo, conta com uma vantagem em relação à masculina: enquanto dois homens que se relacionam sexualmente se tornam uma ameaça radical ao sistema patriarcal, duas mulheres que fazem sexo podem se tornar excitantes para diversos machos da espécie. Não que dois homens transando não sejam igualmente excitantes para eles: é que, enquanto estes despertam o desejo e abalam a frágil masculinidade do mundo, imposta de forma historicamente medíocre, aquelas são mais aceitas nas mesmas condições, desde que colocadas, é claro, em situação de diferenciação a respeito das “outras” para “casar”, como você citou antes.

Como combater este preconceito: afirmação social sem medo de ser feliz, através de todas as formas possíveis. Trabalhar para que a democracia se torne, universalmente, um direito natural. Não que ela não possua falhas e até controvérsias ontológicas, mas porque, na minha modesta opinião, não conseguimos ainda inventar sistema político melhor.

 

JÉSSICA THAIANE: Agora, sobre o projeto que visa a legalização do aborto e propõe tratar a questão como de saúde pública em vez de prática criminosa. No mundo ocorrem milhões de abortos clandestinos ao ano, a prática é decorrência da gravidez interrompida por mulheres que não fizeram planos, engravidaram contra a vontade. Muitas acabam morrendo ou trazendo consigo sequelas para a vida toda, o que tem implicações nos seus planos futuros de reproduzir. Nós temos uma bancada religiosa de parlamentares que é a favor da vida em qualquer circunstância e que trata do aborto como assassinato. A discussão se acirra ainda mais porque, de um lado, há quem diga que não há vida na concepção, portanto, não existe problema; há também quem defenda a legalização ferozmente, como uma parte das mulheres feministas, que recentemente fizeram um protesto pela descriminalização do aborto em frente a uma igreja de uma maneira que para alguns foi tido como um protesto ofensivo (havia frases como: ''Tire sua cruz da minha vagina.''; ou ''Tirem seus rosários dos nossos ovários.''). Em meio a tanta polêmica, você é a favor ou contra a legalização do aborto? Se contra, na sua opinião, qual seria uma boa intervenção política para o problema?

 

FABIO SOUSA: Na verdade, por mais contraditório que possa parecer, a bancada evangélica chegou a defender e legalização do aborto...

O sexo deve ser prazer, mas também é responsabilidade. Você transa, mas também sofre as consequências de sua transa e estas podem ser boas ou ruins a depender do que ocorre e da maturidade de cada um. Uma gonorreia, ou a AIDS são ruins, apesar de tornarem-se um aprendizado para quem as contrai, mas um filho só é ruim quando não se tem maturidade suficiente para encará-lo de outra forma.

Você pode me perguntar: e os casos de gravidez por estupro, por exemplo? Eu direi: aí também entra a maturidade.

Porque o aborto me remete a duas questões éticas importantes: os cientistas ainda não conseguiram estabelecer de modo pleno quando começa a vida; depois, quando se tem uma pessoa dentro de você, crescendo, você está falando sim de seu corpo, mas também do corpo de um outro ser...

Assim, sou contra o aborto a não ser que a gravidez ponha em risco a vida da mãe. Mesmo no caso dos anencéfalos, pois as crianças anencéfalas podem viver anos após o nascimento. Aliás, o caso dos anencéfalos me reporta à questão anterior, a respeito da beleza: queremos assassinar os fetos anencéfalos algumas vezes não porque não viverão, mas porque não se encaixarão aos padrões que estabelecemos como belos e ideais; agindo deste modo, não nos diferenciamos muito dos índios que enterram vivas as suas crianças com algum tipo de necessidade especial – é por isso que afirmo que pensamos que somos, mas na verdade não somos tão civilizados assim... Isso nada mais é do que pura racionalização. Freud explica.

Uma boa intervenção política seria o banimento da hipocrisia sexual e portanto uma reforma no modo de pensar da humanidade. Uma educação sexual, através de todos os veículos existentes, destituída destas hipocrisias, aniquilaria uma boa parcela do ideário que nos motiva a certos deslizes, e, consequentemente, todo o aparelho social se moldaria para que a plenitude humana fosse conquistada neste aspecto.

 

JÉSSICA THAIANE: A mulher integrando o espaço social como figura religiosa nos regimes islâmicos totalitários, acorrentadas ao fundamentalismo, sofrem verdadeiras crueldades; meninas que são proibidas de ir à escola, mulheres restringidas de andarem nas ruas sozinhas, algumas que passam fome por seus maridos terem morrido e elas serem impedidas de ingressar no mercado de trabalho em prol do seu próprio sustento, mulheres que são espancadas... A burca, que no seu significado e a maneira de ser usada mais me parece uma corrente de segurança máxima entrelaçada, cobrindo parte do rosto e escondendo os cabelos, pois em hipótese alguma ele poderá sair de lá se ela estiver na presença de outros homens... Dedos que serão decepados se as unhas forem pintadas, porque a vaidade entre elas é uma coisa que não se pode nem cogitar! Aos olhos de Alá no livro sagrado ALCORÃO, homens e mulheres são iguais, o que tende a ser contraditório... Nós, do mundo ocidental, ficamos perplexos com tantas coisas horríveis! Fica claro que uma parte do mundo muçulmano precisa de uma reformulação cerebral. Até quando mulheres vão ser expostas a tanta crueldade, isso terá um fim?!... 

 

FABIO SOUSA: O fundamentalismo islâmico necessita, sim, de uma reforma intelectual, mas não se engane pensando que apenas eles: a cúria cristã mundial, de todas as denominações religiosas, também necessita de uma reforma intelectual ampla... Na Igreja Católica, por exemplo, as mulheres não podem exercer o papado. A herança judaico-cristã é patriarcal e responsável também pelas agruras que as mulheres têm de suportar diariamente. Não podemos pensar que se trata de algo localizado nesta ou naquela cultura: é um modus vivendi e um modus operandi difundido pela humanidade inteira! Estes padrões sorrateiros serão encontrados tanto em Nova Iorque quanto no Paquistão, apesar de assumirem formas diversas às vezes.

O que mais me choca é que os cristãos que comandam os cérebros das massas (uma minoria esperta) não seguem a Jesus, que deveria ser o seu modelo e guia: o poder temporal, historicamente, é o que tem movido suas ações e as pessoas hipnotizadas e escravizadas não podem, é claro, criticar livremente estas ações contraditórias...

Vemos, então, que as contradições não são privilégio do mundo islâmico.

Tudo isso vai ter um fim!... Os machos da espécie homo sapiens sapiens ainda não perceberam que estão num processo de autossabotagem progressiva e irreversível. A conquista da inteligência possui seu ônus, mas também a sua glória!

 

JÉSSICA THAIANE: No que se refere aos direitos humanos, a legislação de proteção à mulher funciona? Você acha que precisamos de alguma reforma?

 

FABIO SOUSA: Quando ela existe, funciona como um veículo de autoafirmação e tende a se cumprir mais cedo ou mais tarde. O problema é que em diversos países ela simplesmente nem é cogitada.

Necessitamos de todas as reformas mundiais cabíveis para fazer valer o direito das mulheres e este deve ser um foco de todos aqueles que anseiam por um planeta melhor para a humanidade inteira.

 

JÉSSICA THAIANE: A mulher no campo artístico contribuiu muito ao longo dos séculos. Quais foram as suas musas inspiradoras, na arte, na vida?

 

FABIO SOUSA: A arte e a vida, em verdade, para mim se entrelaçam e se confundem, pois não consigo dissociar a minha vida da arte que produzo.

Tive e tenho diversas musas: minhas quatro mães (ontem ganhei mais uma); amigas de ontem, de hoje e de sempre; mulheres com quem namorei; minha esposa; Madonna, de quem sou fã desde cinco anos de idade mais ou menos; Hipátia... Quero também ter uma musa: uma filha, que viva num mundo melhor para as mulheres, onde ela possa desfrutar de dignidade por ser humana em todos os apectos.

Tive e tenho também inspiradores homens, mas este é um tema para nova entrevista...




SEXUALIDADE NO DIVÃ

Por Fabio Sousa, 15/09/2013




 

ALBERTO FILHO: Por que as questões sobre sexualidade tornam-se sempre tão polêmicas? Todos temos um sexo e uma sexualidade. Sempre quando é iniciada uma conversa sobre sexo surge uma censura automática e o papo fica meio superficial. Há como tirar da conversa de sexo o rigor do discurso de orientação, quase profilático? Como fazer?

 

FABIO SOUSA: As questões sobre o sexo são tão polêmicas por causa da censura que permeia nossa sociedade e que pode ser bastante perigosa para a economia psíquica das pessoas. Neste sentido, algumas censuras são bem-vindas, como aquelas em relação à pedofilia, por exemplo, mas a grande maioria, advindas do pensamento ainda medieval das igrejas, só estão gerando mais e mais neurose.

O sexo das pessoas é tão lindo como pode ser uma perna ou um braço, e a sexualidade, por mais que se tenha a pretensão de reprimi-la de modos escusos, sempre irá seguir o seu fluxo, neuroticamente ou não. É impossível aniquilar a sexualidade. Quando cheiramos uma flor, damos rosas aos nossos amores e cobrimos um defunto de cores, nada mais estamos do que cheirando, doando ou adornando através de órgãos sexuais vegetais. Assim, os mentores das igrejas estão lutando contra um poder que eles não têm o cacife de aniquilar, inclusive neles mesmos.

Agora, de fato, quando o discurso a respeito da sexualidade esbarra no quesito da orientação – o que sempre acontece – me parece que ganha um caráter profilático que nasce da homofobia nossa de cada dia. Ora, repito que o homofóbico nada mais é do que alguém que tem medo da homossexualidade que se encontra na sua própria essência, de um modo ou de outro. Observe os escândalos recentes: jogadores de futebol transando com travestis, pastores e padres abusando de meninas e meninos. Se pudéssemos observar um homofóbico com uma lupa psíquica diária e incessantemente, enxergaremos a origem deste medo irracional.

Se o diálogo franco e aberto a respeito do sexo e da sexualidade não for promovido, a fim de se educar a manifestação sexual nas pessoas, estaremos gerando cada vez mais prejuízo à própria evolução da humanidade, através de transtornos psíquicos de variada ordem.

Como promover esse diálogo? É simples: conversando sem agredir ninguém e respeitando as verdades de cada um. O normal é ser diferente. É a diferença que enriquece os humanos e nós precisamos da diferença para nos afirmar enquanto individualidade.

 

ALBERTO FILHO: As questões sobre sexualidade, em especial a homossexualidade, tomaram recentemente uma considerável exposição, frequentes são os grupos de discussão... Também é corriqueira a abordagem da homossexualidade em programas de televisão de uma forma menos temerosa, mesmo assim este continua sendo um tema tabu em muitas situações, a exemplo das relações familiares. Como abordar esse assunto dentro de casa? Qual é o papel dos pais? Os pais têm algum poder de decisão sobre a sexualidade dos filhos?

 

FABIO SOUSA: O assunto deve ser abordado com naturalidade, e não como um tema nefasto, não com o medo de que a Inquisição vá bater à nossa porta. É claro que me refiro aqui aos lares que se encontram inseridos em países democráticos, porque na ditadura tudo muda de figura.

Por acaso os pais de hoje pensam que seus filhos de dezessete ou dezoito anos são tão tolos que não sabem de nada a respeito de sexo – o que impossibilitaria uma conversa com eles? Seria muita pretensão!

Os pais têm o direito de expor suas crenças aos filhos, de orientá-los de acordo com o que pensam sobre a matéria, mas, nesse ponto, temos diversas nuances a considerar: estão a respeitar o direito do outro (ou até deles mesmos, se forem pessoas de homossexualidade reprimida) de serem o que são? Estão promovendo a aniquilação de pessoas através do discurso advindo de um Céu que possuía apenas alguns planetas e a Lua quando certas ideias foram concebidas, mas que hoje se sabe ser composto de trilhões de estrelas e um número incontável de mundos? Estão contribuindo para impossibilitar a felicidade de milhões? É este o mundo que eles desejam perpetuar através dos seus filhos (certamente seria um fardo histórico e consciencial muito pesado)?

Decerto que o papel dos pais é dar as bases sólidas para que os filhos, no exercício da sexualidade, sejam felizes e promovam a felicidade dos outros. Agora, fazer isso perpetuando a neurose é tão prejudicial quanto trabalhar num Campo de Concentração nazista. Para o bom exercício da sexualidade, o respeito a nós mesmos e ao outro é essencial.

Sobre o papel dos pais na sexualidade dos filhos, não diria que eles têm um poder de decisão, mas que sua influência é, de alguma forma, modeladora. Isso porque, via de regra, os pais são os primeiros objetos humanos exteriores da pulsão sexual de seus filhos, seja a mãe com seu seio poderoso, que sacia o que o bebê sente como fome e que pode matá-lo, seja o pai, que oferece uma disputa apaixonante na descrição clássica do Complexo de Édipo. Mas, aqui, estamos partindo de alguns dos princípios básicos da Psicanálise formulados há cem anos, num contexto social bem diferente do que vivenciamos nos povos democráticas do Ocidente, por exemplo. Porque, se a criança tem dois pais, será a mamadeira que saciará a sua fome enquanto braços viris a seguram e balançam. Se tem duas mães, certamente poderá contar com os seios das duas, e a disputa edipiana tradicional dará lugar a toda uma nova espécie de relação, diferente do costumeiro, mas tão válida quanto na apresentação modal.

Já tive oportunidade de afirmar, acho que a você, que na Grécia antiga havia tribos compostas apenas de homens ou mulheres, e que estas tribos apenas se encontravam em rituais religiosos de acasalamento. Ali, nas tribos das mulheres, os meninos só viviam até desmamarem, indo, depois, morar com os outros das outras agremiações compostas apenas por indivíduos do sexo masculino. Nem por isso todas as pessoas, seja de uma agremiação, seja da outra, se tornaram homossexuais. Mas onde quero chegar? É simples: o fato de dois homens ou duas mulheres adotarem uma criança não significa que ela será homossexual por conta disso. É uma tolice sem nome pensar assim. Quero chegar também a esta afirmação: não temos certeza se é o Complexo de Édipo que determina a orientação sexual do indivíduo, no sentido de ele ser homo, hetero ou bissexual. Temos certeza, apenas, que ele influencia nas escolhas das características das pessoas ou das coisas com quem nos relacionaremos sexualmente. Os pais, sejam eles homo, hetero ou bissexuais, podem contribuir para que a sexualidade de seus filhos seja vivida de forma plena e feliz, sem as neuroses advindas de ideias típicas da Idade Média, que mataram e continuam assassinando milhões de pessoas no mundo inteiro, mas são quase incapazes de determinar, ao menos conscientemente, que seus filhos sejam hetero, homo ou bissexuais.

 

ALBERTO FILHO: Todas as pessoas começam a determinar-se e construir sua personalidade nos primeiros aprendizados da infância. É uma construção progressiva: a família, a escola, a sociedade influenciam na formação da personalidade. Tendo os pais como a referência mais próxima para a criança e sua potencialidade concreta de interferência, até que ponto eles podem agir para completar a formação sexual dos filhos, qual o limite?

 

FABIO SOUSA: Primeiro, eu gostaria de dizer que a minha clínica, assim como vários estudos, apontam para o fato de que experiências anteriores ao nascimento exercem bastante influência na economia psíquica dos indivíduos. E aí, nós temos duas vertentes nas academias que pensam destas formas: uma acha que desde a formação da aparelhagem celular o feto começa a receber os dados para a sua “construção” psíquica e outra que busca comprovar que a mente, antes mesmo da formação do corpo, já existia. Assim, nossas influências podem remontar a bem antes da vida em família após o nascimento, das experiências nas escolas ou na sociedade de uma maneira geral.

Tomando também estes fatos como princípios, sou levado a afirmar que os pais influenciam, sim, nas escolhas das características das pessoas ou das coisas com as quais nos relacionaremos sexualmente, mas, pelo menos conscientemente, são quase impotentes no sentido de moldar a orientação sexual das gentes em hetero, homo ou bissexual.

Agora, com certeza, eles podem conseguir, consciente ou inconscientemente, com que a expressão sexual dos seus filhos, seja ela homo, hetero ou bissexual, seja saudável ou neurótica. No caso da expressão neurótica, ela será assim até que encontre um novo caminho, através da análise, por exemplo.

 

ALBERTO FILHO: Alguns afirmam que a homossexualidade é de fato algo possível de ser escolhido, outros afirmam que não, que assim como a heterossexualidade, é uma condição da sexualidade humana. Esta é a posição da Psiquiatria, Psicologia, da OMS. Os pais podem mudar essa condição? Por exemplo, num indivíduo qualquer, uma criança que apresenta comportamentos desadequados ao seu sexo (“menino afeminado” ou “menina masculinizada”), a ação dos pais pode adequar a criança ao seu gênero, quando isso for feito logo no início, nas primeiras manifestações? Recentemente tema parecido foi proposto na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, onde um deputado afirmava estar defendendo o direito daqueles que desejam submeter-se à “cura” e a proibição da Sociedade Brasileira de Psicologia reduzia o patrimônio jurídico daqueles que não se sentiam confortáveis em ser gays; ele estaria defendendo um direito legítimo da pessoa poder escolher participar ou não do tratamento. Essa proposta ficou conhecida como A Cura Gay. No mesmo panorama, os pais podem interferir para que a criança desenvolva sua sexualidade de acordo com o gênero adequado?

 

FABIO SOUSA: Na sua fala estão embutidas uma série de coisas que na minha opinião teremos de desconstruir para que construamos um mundo melhor, mais apto à felicidade de todos.

Primeiro, a questão do masculino e do feminino. Veja: masculino e feminino são construções sociais, tão maleáveis como quaisquer outras construções deste tipo. Antigamente, apenas homens deveriam ser pedreiros, já que esta era uma profissão masculina e a mulher que o fosse era tachada de “machão”. Hoje, as mulheres já podem ser pedreiras em diversas partes do planeta. Antes, homem não podia chorar tão regularmente quanto as mulheres, porque “homem não chorava”. Hoje, os homens choram, cuidam dos filhos, lavam os pratos e arrumam a casa, ou pelo menos é o que se espera. Em alguns países os homens podem usar saias, em outros, não são bem vistos ou causam espanto quando as vestem.

Assim, vamos resumir: macho e fêmea são condições biológicas, feminino e masculino são condições sócio-comportamentais.

Nem todo homem homossexual é afeminado, e nem toda lésbica é masculinizada, entende?

Feliciano não me representa, e você já viu o cuidado dele com as suas sobrancelhas, por exemplo?... Propor uma Cura Gay é classificar a homossexualidade como doença, o que é uma ingenuidade e soberba dignas da Idade Média.

Deste modo, o que seria um comportamento adequado ao gênero? Se quisermos impor um padrão assim – e maioria dos padrões impostos é neurótica – estaremos caindo em sérias contradições históricas... Por que um homem feminino não pode ser heterossexual? Por que um homem masculino não pode ser gay? Por que uma mulher feminina não pode ser lésbica? E onde se encaixariam os bissexuais dentro destes padrões? O ser humano é muito complexo para caber numa caixa de tamanho e forma determinados. Os rótulos recebem influência do capital, fazem as pessoas virarem produtos...

O que importa é que a pessoa seja feliz, que promova também a felicidade dos outros, e não se ela é masculina ou feminina. A felicidade é um estado que se adequa a qualquer sexo ou gênero.

Acho que estas questões, combinadas às respostas dadas acima, já respondem às perguntas que você me fez agora.

 

ALBERTO FILHO: Qual é o melhor momento para levantar a discussão sobre a sexualidade dos filhos?

 

FABIO SOUSA: Quando aparece o ensejo, eles estão preparados para isso e quando se utiliza uma linguagem adequada à faixa etária da prole.

Digo quando aparece o ensejo porque nem sempre é necessário dialogar com os filhos sobre a sexualidade deles. É a sabedoria dos pais que determinará o momento. Às vezes uma atitude, ou várias, valem mais que mil palavras.

Sobre a preparação, é necessário que os filhos sejam vistos, neste âmbito, como um terreno que necessita de adubo, água, clima para receber certas informações. Aqui, é a sabedoria dos pais que deve analisar cada caso.

Também, não posso querer dialogar com meu filho de treze anos do mesmo modo que conversava com ele quando ele tinha cinco...

Neste assunto, eu prefiro a palavra diálogo à palavra discussão.

 

ALBERTO FILHO: Historicamente, os meninos têm uma vida sexual mais movimentada que as meninas, considera-se isso natural. A experimentação sexual durante a infância ocorre com mais frequência entre os meninos; essa experimentação sexual pode ocorrer tanto com outros meninos quanto com meninas e isso não é condicionante para que ele venha a desenvolver um comportamento homoafetivo. A relação sexual homossexual das crianças pode de alguma forma indicar um comportamento homossexual futuro ou esse comportamento faz parte do desenvolvimento natural da pessoa?

 

FABIO SOUSA: A constituição biológica do macho e da fêmea da espécie humana nos dá uma dica importante a respeito de tendências: o pênis cresce para fora, a vagina se intumesce e lubrifica por dentro; o homem goza expelindo o sêmem para fora do seu corpo, a mulher se excita produzindo líquido para dentro de seu canal, principalmente; existe, portanto, uma tendência biológica do macho humano para a extroversão destes impulsos e de introversão na fêmea humana. Mas repare que são tendências, e as tendências podem se concretizar ou não.

A nossa construção social também legou às mulheres um papel injusto: elas devem, dizem os ortodoxos, ser mais comedidas, comportadas e interagir menos, além de sonhar que um homem um dia se interesse por elas. Foram os homens que se valeram da força física para impor tudo isso, e você sabe que o que existe por baixo disso é nada mais nada menos que um medo enorme do potencial realizador da mulher?

As brincadeiras sexuais infantis fazem parte do desenvolvimento psicossexual dos humanos e não indicam necessariamente que um indivíduo será ou não homossexual. Elas aconteciam antigamente com bem maior frequência entre crianças do mesmo sexo porque menino só brincava com menino, e menina só com menina – era a homofobia tácita modelando as nossas estruturas sociais, fortalecendo o machismo e seus abusos de todos os tempos.

A brincadeira é a forma que a criança encontra para, através da fantasia, lidar com suas angústias. A criança possui sexualidade, ela sente prazer sexual ao seu modo e sente também a necessidade de expressar isso.

Conheço homens homossexuais que brincavam sexualmente com meninas, por exemplo.

É claro que não estou dizendo que estas brincadeiras devem ser estimuladas, pois a sexualidade na criança deve ser encarada e manifesta com naturalidade. Mas quase sempre as brincadeiras de cunho sexual na infância não dão ensejo, psicanaliticamente falando, a que os pais tenham certeza sobre a orientação sexual dos seus filhos enquanto adultos.

 

ALBERTO FILHO: A promiscuidade dos relacionamentos é mais frequente entre os homens, as mulheres, os gays ou os heterossexuais?

 

FABIO SOUSA: Eu não conheço estatísticas que comprovem nada neste sentido, mas, pelas construções dialógicas que vimos tendo nesta entrevista, no sentido da construção social do macho e do masculino e da constituição biológica do macho humano, me atrevo a dizer que acho que entre os homens, sejam eles homo, hetero ou bissexuais, as relações tendem a ser mais promíscuas.

Eu concebo, por exemplo, que duas mulheres se encontrem num lugar fechado e apenas se beijem, e, depois, com o tempo, partam para o sexo. Mas fica difícil, embora saiba não ser impossível, conceber que dois homens se encontrem num lugar bem reservado e, desde o primeiro encontro, não sejam bem mais assertivos em suas carícias.

A nível planetário, o homem tem mais espaço, social e psiquicamente, para o sexo.

É uma pena que ainda seja assim.

 

ALBERTO FILHO: Se meu filho resolve contar que é gay, eu devo apoiá-lo ou convencê-lo a rever seus pensamentos?

 

FABIO SOUSA: Deve apoiá-lo, porque não se trata só de pensamentos, mas de uma orientação pulsional incoercível (e não quero dizer com isso que ele pode não deixar de ser homossexual). Deve também educá-lo para que ele exerça sua orientação sexual de modo pleno: sabendo o que faz, que sexo tem consequências inclusive emocionais e que a sexualidade deve ser fator de contribuição para a felicidade dos seres humanos. Ou seja: o mesmo que se deve fazer com um filho(a) hetero ou bissexual.

 

ALBERTO FILHO: A posição da Igreja contrária aos comportamentos homossexuais atinge de que forma a sexualidade das crianças?

 

FABIO SOUSA: Imprimindo tabus medievais que se manifestarão, mais tarde, em neuroses. Os clérigos querem exterminar nos outros aquilo de que têm medo em si mesmos.

 

ALBERTO FILHO: Como orientar corretamente a sexualidade dos filhos sem induzi-los ou torná-los adultos problemáticos, traumatizados com sua sexualidade e a posição ideológica da sociedade, do seu líder espiritual ou a doutrina de sua igreja? A posição rígida da igreja em combater a homossexualidade precisa ser revista ou cabe a cada um escolher a orientação religiosa que mais lhe convém?

 

FABIO SOUSA: É impossível que não haja indução, consciente ou inconscientemente, dos pais na sexualidade dos filhos. O problema é quando essa indução, consciente ou inconsciente, faz deles problemáticos, ou seja, distantes daquilo que são. Quem não é o que é não pode ser pleno.

Neste sentido, a opinião dos pais valerá muito mais do que a ideologia social ou o pensamento da doutrina ou do sacerdote da igreja.

Quem quer que seus filhos sejam felizes, que os cultivem como campos destinados a serem quem são, sexualmente e em outras dimensões pessoais. Que cultivem neles também o bom caráter, que independe da orientação sexual.

A igreja precisa rever sua posição perante os homossexuais – ela não se diz cristã? Se ela não o faz, cabe a nós, sim, escolher a opção religiosa que melhor nos convém.

 

ALBERTO FILHO: Qual é o principal problema sobre a formação sexual das crianças?

 

FABIO SOUSA: A ignorância dos adultos com relação à sexualidade delas.

 

ALBERTO FILHO: O contato entre homossexuais e crianças pode induzir a um comportamento homossexual, tendo em vista a proximidade da relação?

 

FABIO SOUSA: O simples contato social, não. Mas o contato sexual, sim. Só que aí entraríamos no âmbito da pedofilia. Homossexualidade e pedofilia não são a mesma coisa. Não é porque alguém é homossexual que irá abusar sexualmente de crianças. E não é porque uma criança convive com um homossexual que ela irá se tornar homossexual. Pelo contrário: é uma chance de ela aprender a respeitá-lo em meio a tanto desrespeito advindo de pessoas reprimidas.

 

ALBERTO FILHO: A homossexualidade pode ser identificada na criança?

 

FABIO SOUSA: Enquanto orientação sexual definida, não.

Freud nos disse que nós nascemos “perversos polimorfos”. O que ele quis dizer?: Que qualquer coisa ou pessoa que toque ou estimule sexualmente a criança lhe causará um prazer, pois a criança não sabe sequer o que é bissexual, heterossexual ou homossexual quando nasce – ela apenas sente um desejo peculiar à sua fase de desenvolvimento psicossexual.

Esse “perverso polimorfo”, na medida que cresce, vai apresentando a natureza psíquica de todos nós: a bissexualidade. Vide as brincadeiras delas com outras do mesmo sexo... Na medida que cresce, mais cedo ou mais tarde, ela vai sentindo e apresentando aquilo que será quando adulto: homo, hetero ou bissexual. Porém, mesmo na adolescência isto pode não estar totalmente orientado. É no adulto que a orientação sexual se acomoda de uma forma ou de outra, mas a sexualidade sempre apresentará a característica de maior ou menor plasticidade a depender do indivíduo, e a bissexualidade estará sempre ali, latente em todos nós.

 

ALBERTO FILHO: Como conciliar homossexualidade e religião?

 

FABIO SOUSA: Encontrando uma religião que não condene a prática homossexual.

 

ALBERTO FILHO: É melhor esperar ou desde cedo devo contar ao meu filho que sou gay?

 

FABIO SOUSA: Sabe, Alberto, eu aprendi uma coisa muito importante com uma das minhas pacientes. Um dia, ela me disse: “Por que tenho que escrever a palavra bissexual na minha testa? Por acaso os heterossexuais fazem isso?”.

No início, seu filho não vai saber se você é gay ou não – ele nem vai saber o que é ser gay (esse é um preconceito advindo do mundo adulto) – vai amar e encontrar em você um pai. Na medida que ele for convivendo com outras crianças, ele irá fazer comparações e externará o seu pensamento de algum modo. É aí, através de uma linguagem adequada à sua faixa etária, que você deve abordar o assunto. Antes disso, ensine e fortaleça nele os ideais de fraternidade, respeito à alteridade nas relações e nas personalidades.

Depois, você precisará ensinar ao seu filho a se defender perante este mundo cruel, composto de pessoas ainda bastante sádicas, não no sentido de reagir e se isolar diante de discriminações que ele com certeza encontrará, mas de agir com sabedoria para que isso não venha a violar seu direito de ser feliz amando quem ele e seu pai são. Ele precisará encontrar amizades sadias, que reforcem esses ideais de fraternidade que você terá lhe ensinado, além de apoio e profundo amor e respeito no lar.

 

ALBERTO FILHO: Algumas pessoas se dizem não ser discriminadoras, mas quando questionadas ou quando de fato a relação homossexual entra em um contato mais próximo, elas a rejeitam. Por exemplo, um pai ou uma mãe se declara avançada, sem preconceitos, mas quando seu filho(a) ou parente próximo passa a desenvolver um comportamento homossexual ela passa a discriminar. O relacionamento homossexual então é encarado bem desde que distante do seu círculo familiar? Como explicar essa posição?

 

FABIO SOUSA: Existem pessoas que só não são caretas na fachada. Elas acham que o assunto é superficial e que nunca irá bater na porta delas... Mas, um belo dia, o que acontece?: Eis que um ente querido se revela homossexual. E aí, como agir? Continuar com o preconceito velado e contribuir para a infelicidade de quem se ama?... Esta é uma questão ética muito importante, porque a homossexualidade permeia o universo e existe uma revolução gay em preparação no mundo atualmente.

 

ALBERTO FILHO: É melhor, com relação à sexualidade, viver em uma comunidade religiosa, laica ou ateia?

 

FABIO SOUSA: O melhor é viver num clima de espiritualidade. Dentro deste clima, nós podemos escolher uma religião ou não. Abraçar uma religião que encara a sexualidade como obra do demônio é sadomasoquismo. A sexualidade humana na Terra, seja ela de orientação homo, hetero ou bissexual, é obra de Deus, e os homens, pensando idiotamente que a vontade divina se encontra ao seu dispor, querem ir de encontro às leis universais... são galhos secos que não resistirão a um sopro de Verdade.

 

ALBERTO FILHO: A diversidade de possibilidades sexuais pode ser entendida pelas crianças ou elas não tem aptidão de compreender esses conceitos?

 

FABIO SOUSA: Elas sentem essa diversidade em virtude da pluralidade de seus impulsos, mas quase sempre não estão aptas a raciocinar como um adulto a respeito disso: falta-lhes o desenvolvimento do raciocínio e do córtex cerebral.

 

ALBERTO FILHO: O fato de a família ser monoparental ou formada por casais homoafetivos influencia na sexualidade dos filhos ou essa independe de fatores externos?

 

FABIO SOUSA: A família, seja ela qual for, influencia na manifestação sexual. Mas não é o fato de os pais serem homoafetivos, heteroafetivos, poligâmicos ou de se ter apenas uma figura materna ou paterna que irá determinar a orientação sexual das pessoas.

Para ficar mais claro: um menino criado por dois homens que se amam pode ser tanto hetero, bi ou homossexual. Agora, se ele for heterossexual, por exemplo, irá buscar uma mulher que seja decidida ou doce como um de seus pais, morena ou loira como um deles, entendeu? Não foi o fato de o garoto ter tido dois pais que o tornou heterossexual, mas os objetos de algumas de suas pulsões – as mulheres que ele escolher para transar, terão algumas características desses pais, porque terá sido com eles que o garoto aprendeu, na infância, a se sentir seguro de uma ou de outra forma.



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Fabio Sousa

Escritor, Psicanalista, autor do livro Peregrinação Interior: Transcendência.

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